O PAPEL DO MÉDICO NA MEDICINA MODERNA
Dr. Silvano Raia - Folha de São Paulo (18/04/2001)
A participação da classe médica na implantação e na defesa da lista única de
receptores para transplante de órgãos estimula uma reflexão sobre o papel do médico na
medicina moderna. A sua presença no cenário de euforias e temores desenhado pelo
progesso da última década é imprescindível. É preciso, para dimensionar a atuação
que dele se espera nesse contexto, analisar os recentes progressos biotecnológicos.
Como esses progressos oferecem benefícios até há pouco inimagináveis, eles exercem um
efeito deletério nos princípios que definiam até agora os limites da atuação médica
e estimulam o hábito de aceitar inovações apenas porque se tornou possível fazê-las.
A grande revolução é mesmo a substituição de tecnologia bruta por tecnologia pura.
O progresso vem ocorrendo no âmbito da tecnologia bruta desde os tempos da pedra lascada.
Baseia-se no princípio de que o homem, para sobreviver, deve transformar elementos da
natureza em produtos para seu uso.
Para ilustrar a
diferença entre a tecnologia bruta e a tecnologia pura, comparemos dois sistemas de
produção de fios. De um lado, imaginemos uma fábrica têxtil, em Birmingham, no início
da era industrial. O ambiente é sombrio, poluído pelo carvão das caldeiras, pelo ruído
dos teares e pelo cheiro das tintas e da pouca higiene. Os fios produzidos são
irregulares e relativamente frágeis.
Observemos, de outro lado, as máquinas moleculares da glândula fiandeira de uma aranha.
Produzem, com menor gasto energético e sem poluição, a mais resistente fibra em
relação ao diâmetro. É desnecessáriso enfatizar as diferenças, em relação à
perfeição ideológica, entre os dois sistemas de produção de fios.
Descobrindo essas
vantagens, o homem foi estudar o funcionamento das máquinas moleculares da natureza.
Aprendeu que elas obedecem a ordens emitidas por estruturas de DNA (denominadas genes) que
se transmitem em estruturas chamadas cromossomos. Para aproveitar as características e as
funções naturais dos seres vivos, foi criada, então, a nanotecnologia molecular.
O homem passa a cruzar animais para aperfeiçoar a herança genética, produzindo
variedades mais resistentes e mais produtivas. A fecundação artificial é empregada,
espermatozóides são congelados e realiza-se a divisão de embriões. Mas, mesmo assim,
as leis da natureza são respeitadas.
Então o homem desenvolveu métodos mais avançados. Aproveitou as máquinas moleculares
existentes e criou outras, substituindo ou introduzindo genes nos cromossomos de animais
de diferentes espécies não respeitando, entretanto, as leis da natureza.
As aranhas fornecem, mais uma vez, um bom exemplo. Recentemente, uma empresa britânica capaz de produzir, em grande escala, a fibra das teias. Ela modificou o patrimônio genético de cabras, acrescentando genes de glândulas fiandeiras. Assim os animais produzem, no leite, as proteínas necessárias para a produção industrial de fibras, as quais serão usadas na confecção de cabos finos muito resistentes.
Na medicina, o grande
salto tecnológico veio do uso da nanotecnologia molecular a nanomedicina ,
empregando a tecnologia pura na prevenção e no tratamento de doenças. Já se realizam
feitos inéditos e estão previstas, para breve, novidades fascinantes.
No fim do século passado, conseguiu-se conhecer praticamente todo o genoma humano,
identificando inclusive os genes causadores de doenças. Acredita-se que, em dez anos,
todos os bebês terão os seus repertórios genômicos identificados. Seus pais
receberão, com a conta da maternidade, esses dados.
Nossos descendentes se beneficiarão de progressos da nanomedicina ainda indispensáveis.
Usar essa tecnologia para prevenir doenças não causa preocupação, os riscos aparecem
quando ela passa a ser empregada para modificar situações já existentes.
Há poucos meses, a
menina Molly Nash nasceu com uma doença genética chamada anemia de Fanconi. Incapaz de
produzir células da medula óssea, morreria em pouco tempo. Os engenheiros genéticos da
Universidade de Minnesota transferiram para Molly células-tronco do cordão umbilical de
Adam, seu irmão recém-nascido.
Essa abordagem, onírica algumas décadas atrás, incluiu um detalhe muito preocupante.
Adam foi escolhido entre oito embriões, seus irmãos, produzidos "in vitro".
Como o gene defeituoso e causador da doença é associado ao gene que determina o sexo
feminino, a colheita de material foi realizada num embrião masculino capaz,
portanto, de corrigir o defeito da irmã. Os outros sete foram destruídos. Foi a primeira
vez que um embrião humano foi escolhido arbitrariamente para sobreviver entre outros
vários, que foram sacrificados.
A conduta foi aprovada por todas as comissões éticas consultadas. O argumento foi o de
que o procedimento permitiu evitar a doença num embrião e salvar uma criança, ambos, de
outra forma, condenados à morte. Ao considerarmos ética a destruição de embriões
indesejáveis, abrimos o caminho para destinos imprevisíveis, como o da eugenia e o da
clonagem humana.
Para obter a ovelha Dolly, foram sacrificados 267 embriões defeituosos. Devem merecer reflexão, também, os resultados preliminares da interferência genética, acentuando traços como inteligência, atração física, estabilidade emocional e outros. O genoma de qualquer ser humano feminino é apenas 0,1% diferente do genoma da artista Julia Roberts ou da cientista Marie Curie. Imitá-las, portanto, não seria difícil. E até, quem sabe, somar características para criar uma supermulher.
Às ansiedades e às
angustias desse cenário caleidoscópico, soma-se um risco adicional, previsível e
particularmente importante para o nosso país. As novas técnicas trazem, muitas vezes,
custos elevados, o que pode transformá-las em instrumento para aumentar a desigualdade
entre os seres humanos.
Surge, assim, a necessidade de uma ação moderadora para dirigir e batizar os avanços em
curso e os previstos. O médico, por personalidade e por formação, possui um perfil
adequado para exercê-la. Ocupa uma posição estratégica entre o arrojo dos
pesquisadores e os verdadeiros interesses da sociedade.
Extrapolando os limites atuais de sua atuação profissional, ele pode agir nas duas
direções. O exercício dessa responsabilidade, garantindo acesso equânime às benesses
do progresso, ocorreu recentemente entre nós.
O êxito da regulamentação da lista única de recpetores só foi possível graças à
interação da classe médica com a sociedade. Os médicos agiram para que a nova
técnica, a sociedade, os pacientes interessados, os governos estadual e federal e o
Ministério Público se aproximassem e moldassem uma solução que a todos atendesse com
justiça. Apareceram discussões, ameaças, manifestações demagógicas e expressões de
interesses menores. Mas prevaleceram a ética, o idealismo, o desejo de justiça e o
respeito aos menos favorecidos.
Justifica-se a afirmativa de James Watson, descobridor da estrutura helicoidal do DNA: "Nós, humanos, fomos educados acreditando que o destino estava escrito nas estrelas. Aprendemos que ele está escrito em nossos genes".
O homem pode interferir
nos seus genes e, por eles, modificar o destino. Devemos contribuir para que essa
oportunidade seja aproveitada por todos, para que obedeça aos limites da ética e para
que seja orientada para diminuir diferenças, e não para aumentá-las.
Esse é o novo papel do médico.
Silvano Raia, 70, é professor emérito da Faculdade de Medicina da USP e membro da
Academia Nacional de Medicina.