CLONAGEM
O que é um clone?
Quando
ouvimos falar em clonagem, a primeira coisa que nos vem à mente é
a ovelha Dolly, o primeiro animal clonado de células de um indivíduo
adulto. A clonagem, entretanto, não se refere apenas ao método
aplicado no caso de Dolly. Podemos clonar ou gerar cópias de genes, células,
tecidos, órgãos e plantas. A palavra clone deriva do grego Klón,
o broto da planta que, quando quebrada, pode se desenvolver como a planta-mãe.
Para os microbiólogos, por exemplo, o termo clone se aplica a uma população
de microorganismos geneticamente idênticos. Nos animais, inclusive no
homem, ocorre um processo de clonagem natural que leva à formação
de gêmeos idênticos. Isto se dá quando o embrião,
nos estágios iniciais de seu desenvolvimento, sofre uma divisão
natural, originando dois ou mais indivíduos geneticamente iguais.
Sabemos que a maioria dos organismos, com excessão dos assexuados, se
desenvolvem da união de um indivíduo do sexo masculino, com outro
do sexo feminino. Um espermatozóide que contém n cromossomos,
irá fecundar um óvulo também com n cromossomos, formando
um indivíduo com 2n cromossomos. Entretanto, na clonagem artificial (o
caso de Dolly), não ocorre a fecundação do óvulo
pelo espermatozóide para formar um novo indivíduo. Nesse procedimento,
o novo indivíduo será criado da célula somática
(2n cromossomos) do indivíduo original, portanto, com os mesmos genes
deste, daí ser considerado a sua cópia.
Devemos lembrar também que existe uma idéia muito difundida, porém
errada, de que o clone é uma cópia idêntica de seu original.
Sabemos que todo indivíduo é resultado das interações
entre o seu genótipo e o seu ambiente. O clone de qualquer indivíduo,
apesar de conter o mesmo material genético do original, não será
idêntico a este último, pois vai sofrer influências ambientais
diversas, que poderão acarretar diferenças fenotípicas
entre os dois. Isso é válido tanto no caso de Dolly, em que o
original desenvolveu-se num período de tempo anterior ao clone, quanto
no caso de gêmeos idênticos (clones naturais). Um bom exemplo relacionado
a esse fenômeno é o caso de Cedric, Cecil, Cyril e Tuppence, quatro
carneirinhos da raça dorset que foram clonados pela equipe de Ian Wilmut
e Keith Campbell, a mesma que clonou Dolly e Polly. Esses quatro carneiros são
geneticamente idênticos, porém diferem em tamanho e temperamento,
o que pode significar que os genes sozinhos não determinam todos os caracteres
físicos e comportamentais de um organismo, eles estão em diálogo
constante com o ambiente, interagindo com o mesmo.
As Técnicas
Os
famosos casos das ovelhas Dolly, Megan e Morag estão relacionados a uma
técnica de clonagem chamada de transplante nuclear, desenvolvida pela
equipe de Ian Wilmut e Keith Campbell no Instituto Roslin em Edimburgo, Escócia.
Esse procedimento envolve duas células: a célula recipiente e
a célula doadora. A recipiente, normalmente, é um ovo não
fertilizado, retirado da ovelha logo após a ovulação. A
doadora, com todo o seu material genético diplóide, é aquela
que será copiada (clonada). Esta célula pode ser retirada de um
embrião, ou de um animal adulto. O primeiro passo é esvaziar a
célula recipiente de seu material genético, ou seja, retira-se,
com uma micropipeta, os cromossomos do núcleo desta célula. Em
seguida, será realizada a fusão da célula doadora com a
célula recipiente esvaziada. Essa fusão é feita com o auxílio
de descargas elétricas definidas e seqüenciadas. O embrião
formado será, então, colocado num meio de cultura durante, mais
ou menos, uma semana. Dando-se o desenvolvimento do embrião, este será
implantado no útero de uma terceira ovelha, onde continuará a
se desenvolver até ser parido por sua mãe de aluguel. A diferença
entre o caso de Megan e Morag e o de Dolly é que, no primeiro caso, a
célula doadora foi retirada de um embrião com a idade de nove
dias, e, no de Dolly, a célula doadora foi retirada de um animal adulto,
porém, em ambos, essas células já apresentavam o grau considerável
de diferenciação. Este fato poderia ser um empecilho para o sucesso
das clonagens se não fosse uma inovação introduzida em
Roslin, como veremos mais adiante.
A
técnica da transferência nuclear, ou transplante nuclear, já
vinha sendo desenvolvida desde a década de 1980, tanto na Europa como
na América do Norte. O primeiro cientista a clonar com sucesso ovelhas
usando essa técnica foi o dinamarquês Steen Willadsen. A nova técnica
desenvolvida em Roslin graças aos conhecimentos de Keith Campbell sobre
o ciclo celular apresentava, entretanto, uma novidade que foi revolucionária
em relação às técnicas anteriores. Agora já
se sabia que o núcleo doador, se fosse transferido na fase G0 (quiescente)
da sua mitose, estaria mais apto a ser reprogramado e assim recuperar a sua
totipotência, permitindo ao novo zigoto se diferenciar nos mais diversos
tecidos e órgãos, ao longo do seu desenvolvimento embrionário.
Esse era o empecilho maior que tornava a clonagem pela transferência nuclear
uma tarefa muito difícil, ou seja, na técnica antiga os pesquisadores
estavam mais preocupados em obter um núcleo doador que ainda não
tivesse se diferenciado o bastante, a ponto de perder a sua totipotência.
Na maioria das vezes, isso era impossível, o que malograva as tentativas
de clonagem por esse método, apesar dos poucos sucessos.
Outra técnica desenvolvida por Wilmut e sua equipe mistura o transplante
nuclear com a transgênese. Nela o gene de interesse é adicionado
ao genoma de uma célula, que será a célula doadora no processo
de clonagem. O primeiro animal produzido com essa técnica foi a ovelha
Polly, clonada de uma célula doadora que recebeu o gene para o fator
IX humano, uma proteína do sangue usada no tratamento da hemofilia B.
As glândulas mamárias dessa ovelha secretam proteínas humanas
com o seu leite. A conjunção dessas duas técnicas permitiria
a produção de múltiplos indivíduos transgênicos,
ou seja, clones que carregam a mesma alteração genética.
Segundo o próprio Ian Wilmut, entretanto, a técnica da transferência
nuclear tem suas limitações e, ainda, não é totalmente
eficiente. É importante saber que no experimento de Dolly, esta foi a
única sobrevivente viável, dentre duzentos e setenta e sete possíveis
clones de ovelhas. Todos os experimentos com clonagem descritos até agora
mostram um padrão consistente de mortalidade durante o desenvolvimento
fetal e embrionário, na ordem de um a dois por cento de embriões
que conseguem sobreviver e se desenvolver. Infelizmente, mesmo alguns dos clones
que sobreviveram até o nascimento morreram logo depois. As causas dessas
mortes permanecem desconhecidas, mas isto pode refletir a complexidade de uma
reprogramação genética necessária para que uma prole
saudável seja produzida. Mesmo se um gene se expressa de maneira inapropriada
ou falha para expressar uma proteína importante, o resultado pode ser
fatal. Uma reprogramação pode envolver a regulação
de milhares de genes num processo que pode incorporar fatores aleatórios.
Conclui Wilmut. A despeito da importância da quiescência para o
sucesso do desenvolvimento do clone, estudos mais recentes têm demonstrado
que o fato da célula estar nessa fase do seu ciclo, talvez não
seja o único fator importante para o sucesso do desenvolvimento do clone.
Clonar humanos?
Com
o sucesso da clonagem animal, começaram a surgir os esperados rumores
e preocupações sobre a possibilidade de clonar seres humanos.
É natural esse tipo de reação, na sociedade, sempre que
os avanços da biotecnologia ameaçam mudar a ordem natural das
coisas. Manipular o desenvolvimento de um ser humano, desvendar todos os nossos
segredos escondidos nos genes, ou alterar a natureza genética de plantas
e animais; tudo isso, de certa maneira, agride nossas mais profundas crenças
em um mundo onde as leis naturais, ou as leis de Deus, não devem sofrer
a interferência humana.
No caso da clonagem humana, existe um sentimento negativo de toda a sociedade.
Como escreveu James Q. Wilson Há um sentimento natural de indignação
pela idéia de que bebês idênticos estariam sendo fabricados
em série. Outras vezes surgem boatos sobre idéias fantasiosas
como clonar grandes personalidades das ciências e das artes, ou mesmo
criar um exército de hitleres. Devemos salientar que, apesar do sucesso
de alguns experimentos em animais, a maior parte da comunidade científica
acha que a aplicação de tal técnica seria inadmissível
em seres humanos, pois, além das dificuldades práticas (mencionadas,
anteriormente, pelo próprio Wilmut), surgiriam barreiras éticas,
morais e legais, as quais dificilmente seriam sobrepujadas.
Por outro lado, sabe-se que esse tipo de experimento, tanto nos EUA como na
Grã-Bretanha e em muitas outras nações, não é
explicitamente ilegal, e as técnicas e os equipamentos necessários
para tanto são muito comuns nos grandes laboratórios de biologia.
Pesquisadores do Oregon Regional Primate Center, em Beaverton, EUA, anunciaram
que conseguiram clonar macacos de células embrionárias. Dessa
maneira, a já dominada técnica de fertilização humana
in vitro, necessitaria de um modesto investimento extra para incorporar a tecnologia
da clonagem em humanos.
Na verdade, não sabemos até que ponto irão chegar as conseqüências
advindas dessa tecnologia, haja vista o desenvolvimento, cada vez mais rápido,
da ciência nestes últimos trinta anos. Da mesma maneira que todas
as outras inovações tecnológicas e biotecnológicas,
as recentes revoluções na biotecnologia também poderão
trazer como conseqüência uma mudança de comportamento da sociedade
com relação às implicações éticas
e morais resultantes desses progressos. Apesar da possibilidade de clonar humanos
ainda ser muito remota (os próprios pesquisadores escoceses deixaram
claro que seria antiético adaptar suas técnicas para a clonagem
de humanos), se faz necessário, que a sociedade esteja a par de todos
estes desenvolvimentos e de suas conseqüências, com a criação
de fóruns públicos e comissões de estudos éticos
relacionados a esses problemas.
A Clonagem no Brasil
No dia 21 de março o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento,
Marcus Vinícius Pratini de Moraes, anunciou, em Brasília, o nascimento
do primeiro animal clonado brasileiro, a bezerra Vitória da raça
simental, nascida na Fazenda Sucupira, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento. As pesquisas em reprodução animal na Embrapa
começaram em 1984 e são o resultado da tecnologia de transferência
nuclear; a bezerra Vitória é resultado de núcleos transferidos
de um embrião de cinco dias coletado de uma vaca simental pela técnica
de transferência de embriões clássica. Essa técnica
é semelhante àquela usada na clonagem de Megan e Morag, na qual
uma célula é enucleada (célula recipiente) e depois fusionada
com a célula doadora retirada de um embrião. De acordo com a Embrapa
...este é o primeiro passo para que o Brasil domine completamente essa
tecnologia e constitua a base da aplicação prática da transferência
nuclear nos programas de conservação e melhoramento animal. Estudos
de simulação demonstram que a combinação da clonagem
com as demais técnicas de multiplicação animal permitirá
obter, em um ano, o ganho genético equivalente a 12 anos de seleção
e multiplicação pelos métodos tradicionais. Para o diretor-presidente
da Embrapa, Alberto Duque Portugal, o domínio da tecnologia de clonagem
animal pelo Brasil possibilitará a reprodução acelerada
de animais geneticamente superiores, a evolução de pesquisas de
transgenia animal e também a reprodução de raças
de animais ameaçadas de extinção no território nacional.
(Texto adaptado do site http://intermega.globo. com/trolemar/clonagem.htm.)
Bibliografia
BEARDSLEY,
T. A clone in sheeps clothing. Scientif American (mar. 1997).
Disponível em <http://www.sciam.com/explorations/030397clone/030397beards.html.
Acesso em: BEARDSLEY, T. Cloning hits the big time. Scientific American Exploration,
9 fev. 1997.
ROSLIN
INSTITUTE ONLINE. Disponível em: <http://www.ri.bbsrc.ac.uk/library/research/cloning/dolly.html.
WILMUT,
I. CAMPBELL; TUDGE, C. Dolly, A Segunda Criação. Rocco.
WILMUT, I. Cloning for Medicine. Scientific American, (dez. 1988).}
Disponível em: < http://www.sciam.com/1998/1298issue/1298wilmut.html.
Acesso em: WILSON, J. Q. The paradox of cloning. Weekly Standard. 26 mai. 1997.