:: FICAR, O VERBO MAIS GOSTOSO DO MUNDO

Você gosta de análise sintática? Conjugação verbal?
Descubra os mil usos que um verbo pode ter na sua vida.

Se você falar para a sua avó que ficou com um menino superlegal, ela pode não achar nada de mais. Ou pensar que essa juventude tem preguiça até de terminar a frase e perguntar. “Mas vocês ficaram fazendo o quê?” Você vai ter de explicar que ficar, do seu jeito (aliás, o jeito mais gostoso de conjugar esse verbo supertransitivo), ainda não está no dicionário, embora faça parte da vida de todo mundo. Para o Aurélio, ficar é “estacionar, estar situado” ou, quando muito, é coisa para se manter em segredo, do tipo “isso fica entre nós”. Para um professor de gramática, quem fica, fica em algum lugar ou de algum jeito, jamais fica com alguém. Se ele pensa que nisso se resume esse verbo, chegou a hora de mostrar que ficar ficou muito mais interessante.

Conjugando o verbo ficar

Gerúndio
Eu estou ficando
É a modalidade mais comum, pois tem a vantagem de não determinar nem o início nem o fim da ficada. Estou ficando indica que você já ficou e pode ficar outras vezes, mas, se isso não acontecer, não tem nenhum problema.

Presente do Indicativo
Eu fico
A moda começou com D. Pedro I, que além de gritar Diga ao povo que fico! também ficava com a Marquesa de Santos. Esse tempo verbal indica o presente imediato: você está na festa, um menino maravilhoso chega e você diz: Tudo bem, eu fico.

Pretérito Imperfeito do Subjuntivo
Se eu ficasse
Baixou o desânimo. Se você ficasse com o Aurélio seria ótimo, mas ele resolveu namorar firme ou não dá a menor chance. O nome complicado do tempo verbal indica uma situação ainda mais complexa. É para ser conjugado com o olhar perdido e um certo tom desanimado.

Pretérito Mais-Que-Perfeito
Eu ficara
Já caiu em desuso e só é usado no sentido tradicional do verbo ficar.

Futuro do Subjuntivo
Se eu ficar
Significa que você tem planos para quando esse momento chegar e não deixará escapar a chance. Para atrair bons fluidos, você pode conjugar de um jeito ainda mais decidido: Quando eu ficar com Lucas... é frase de quem espera o melhor desfecho possível.

Futuro do Pretérito
Eu ficaria
Chegou a chance de você finalmente entender como um tempo verbal pode ser futuro de alguma coisa no passado. É pura condição, hipótese, revela um desejo difícil de ser realizado. Por isso, já pertence ao passado mesmo não tendo acontecido. Difícil de entender? É só conjugar com algum deus do Olimpo: Eu ficaria com o Leonardo DiCaprio se ele soubesse que eu existo. Uma pena.
Imperativo
Não existe na primeira pessoa
Como ficar depende da sua vontade e não tem o menor sentido você se obrigar a ficar com alguém, não se conjuga esse verbo na primeira pessoa do imperativo.

Presente do Subjuntivo
Que eu fique
Aqui caímos no terreno da reza brava e das simpatias. Quando você diz Que eu fique, significa que você tem muita vontade de que isso aconteça e acha até possível, mas gostaria que os anjos e as estrelas dessem uma força.

Particípio
Ficado
Deve ser o estado que alguém fica depois de tantos beijos.

Pretérito Perfeito
Eu fiquei
Conjuga-se de preferência no dia seguinte: Ah! eu fiquei com o Bruno e foi ótimo... Dá para entender facilmente por que os gramáticos resolveram chamá-lo de perfeito.

Pretérito Imperfeito
Eu ficava
O nome também diz tudo, imperfeito. A coisa ia bem, você ficava com ele, mas surgiu algum imprevisto: você teve de ir embora, chegou a sua turma, pintou sujeira ou você descobriu que o menino era ansioso demais e preferia conjugar o modo imperativo, que não combina com a delicadeza do momento.

(PRADO, R. Ficar, o verbo mais gostoso do mundo. Capricho, 27 set. 1998. p. 86-87.)


:: A ESTRANHA (E EFICIENTE) LINGUAGEM DOS NAMORADOS

– Oi, meu berilo!
– Oi, meu anjo barroco!
– Minha tanajura! Minha orquestra de câmara!
– Que bom você me chamar assim, meu pessegueiro-da-flórida!
– Você gosta, minha calhandra?
– Adoro, meu teleférico iluminado!
– Eu também gosto muito de ser tudo isso que você me chama!
– De verdade, meu jaguaretê de paina?
– Juro, meu cavalinho de asas!
– Então diz mais, diz mais!
– Meu oitavo, décimo, décimo quinto pecado capital, minha janela sobre a Acrópole, meu verso de Rilke, minha malvasia, meu minueto de Versailles.
– Mais, agapanto emu, tempestade minha!
– Minha follia con variazoni, de Corelli, meu isto-e-aquilo enguirlandado, meu eu anterior a mim, meus diálogos com Platão e Plotino ao entardecer, minha úlcera maravilhosa!
– Ai que lindo, liiiiiindo, meu colar de cavalheiro inglês num retrato de Ticiano! Meu fundo-do-mar, você me põe louca, louca de amar as pedras, de patinar nas nuvens!
– E eu então, minha górgone, minha gárgula de Notre Dame, e eu, minha sintaxe de Deus?
– Você fala como falam os balões de junho de Portinari, as jóias da coroa do reino de Samarcanda, você, meu imperativo categórico, você, minha espada maçônica, você me mata!
– E você também me trucida, me degola, me devolve ao estado de música, meu tambor de mina!
– Todos os incentivos oficiais reunidos e multiplicados não valem a tua alquimia, meu ministro do fogo!
– Tuas paisagens, teu subsolo infernal, teus labirintos são superiores em felicidade a qualquer declaração dos direitos do homem!
– A primeira vez que eu vi você naquele bar do crepúsculo eu senti que as pirâmides e as cataratas não valiam a tua unha do dedo mindinho! Porque você é o Banco das estrelas, e pode comprar todas as coisas do mundo, inclusive as águas e os animais, para restituí-los à vida em liberdade! Como posso ouvir outras palavras senão as tuas, meu almanaque do céu? Minha ciência do insabível? Meu terremoto, meu objeto voador identificado?
– E nascemos um para o outro, nascemos um no outro, e estamos nessa desde antes do começo dos séculos, meu nenúfar!
– E estaremos mesmo depois que os séculos se evaporarem, ó meu desenho rupestre, meu formigão atômico!
– Mandala, raio laser, sextina! Tudo meu, é claro!
– Pomba-gira!
– Clepsidra!
– Sequóia minha minha minha!
Diálogo aparentemente louco, mas que dois namorados de imaginação mantêm todos os dias, com estas ou outras palavras igualmente mágicas. Não inventei nada. Apenas colecionei expressões ouvidas aqui e ali, e que me pareceram espontâneas, isto é, ninguém deve ter preparado antes o que iria dizer, de tal modo as palavras saíam entrecortadas de risos, interrompidas por afagos, brotando da situação. O amor é inventivo e anula os postulados da lógica. Ele tem sua lógica própria, tão válida quanto a outra. E os amantes se entendem sob o signo do absurdo – não tão absurdo assim, como parece aos não-amorosos. Já ouvi no interior de Minas alguém chamar seu amor de “meu bicho-de-pé” e receber em troca o mais cálido beijo de agradecimento.
Esta coletânea de frases de amor está aqui como introdução ao projeto não comercial de comemorações do Dia dos Namorados. Não para quelas sejam repetidas mecanicamente. Todo namorado que se preze deve inventar as besteiras líricas e deliciosas que a gente não diz para qualquer pessoa, só para uma, e só em momentos de pura delícia. Funcionam? E como?

(Carlos Drummond de Andrade, Boca de Luar)

Vocabulário

· berilo: pedra semipreciosa.
· tanajura: nome dado às fêmeas ou rainhas da família das formigas.
· calhandra: sabiá do campo.
· jaguaretê: tipo de pantera.
· malvasia: uva muito doce.
· minueto: antiga dança francesa.
· agapanto: erva ornamental de flores brancas ou roxas.
· górgone: personagem mitológica.
· gárgula: buraco por onde se escoa a água de uma fonte.
· imperativo: necesidade, imposição.
· categórico: claro, explícito.
· crepúsculo: luminosidade do amanhecer.
· nenúfar: plantas da família das ninfeáceas.
· rupestre: esculpido na rocha.
· postulados: princípio não demonstrável.