:: A MORTE EM VÁRIOS ÂNGULOS

A partir do século XVII começou-se a questionar a coexistência dos vivos e dos mortos, conforme afirma Philippe Ariès em sua obra A História da Morte no Ocidente, de 1975, e são percebidos sinais de intolerância com os mortos. Esta intolerância, caracterizada sobretudo pela não discussão do tema morte, segundo o historiador francês, não se fez presente no discurso literário e na expressão artística, que, ao contrário, muito bebeu do assunto.
Para mostrar esta produção ao longo dos séculos, o Museu de Arte de Santa Catarina (Masc), realiza a exposição A Poética da Morte na Cultura Brasileira. A mostra, a maior já realizada sobre o tema no País, abrange um vasto campo de representações como pintura, poesia, folclore, signos da Igreja Católica, cultos de diversos povos, depoimentos literários, arquitetura cemiterial, música, vídeo e muito mais.
22 salas ocupam todo o espaço do museu. A exposição se iniciou com uma instalação celebrando a Vida, do grupo de artistas plásticos Implumes, de Florianópolis. "A morte é mais tratada como categoria filosófica e antropológica e pouco tratada como fato cultural. Esta exposição pretende resgatar a tradição brasileira no assunto, o imaginário que a idéia na morte tem suscitado na nossa cultura, em especial na cultura artística", expõe João Evangelista de Andrade Filho, curador da mostra e administrador do Masc.
Um dos pontos altos da exposição são os 60 poemas ilustrados por artistas de todo o País. Gravuras, desenhos, aquarelas, pinturas em técnica mista e bico de pena criam as imagens de versos que vão de Padre Anchieta, passando por Gregório de Matos, Cruz e Sousa e Manuel Bandeira até Vinícius de Morais e Hilda Hirst. Alguns nomes importantes entre os muitos que figuram neste espaço são Maciej Babinski (CE), Gil Vicente (PE), Miguel Gontijo (MG), Elder Rocha (DF), Lúcia Fetal (RJ), Carina Wiedle (PR) e Jandira Lorens (SC).

Versos a um Coveiro
(Augusto dos Anjos)

Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres e algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a constar na paz ascética
Dos tálidos carneiros sepulcrais

Tíbios, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!

Outras quatro instalações foram montadas na mostra. Uma delas é a "Não Morro Só", do artista plástico Charles Narloch, sobre a morte dos homossexuais no Brasil e no mundo. A obra foi mostrada com performances dentro da concepção do tema. "É um questionamento e um protesto desta morte por preconceito, ainda uma realidade no mundo", explica o Narloch.
Entre os artistas brasileiros que trabalham com a temática morte, ganham destaque na mostra o pintor Victor Meirelles, com a obra "A Morta", Flávio de Carvalho com a seqüência de quadros "Minha Mãe Morrendo", e o xilogravador Newton Cavalcanti. Contabilizam nesta exposição cerca de 180 obras originais, cedidas por museus e colecionadores particulares. Por razões de preservação, outras 100 sofreram plotagem, como o conjunto das obras de Carvalho.
A cultura dos povos indígenas ocupa a sala etnográfica, organizada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pelo Museu Antropológico da UFSC. O espaço mostra uma série de fotografias do ritual funerário dos índios Bororós e uma urna funerária. A Igreja Católica vem representada por 40 crucifixos barrocos, todos cedidos por igrejas, colecionadores particulares, antiquários do País e pelo Museu de Arte Sacra de Azambuja.
O culto dos Eguns na religião dos Iorubás integra o espaço reservado à cultura afro-brasileira. A sala tem dois ambientes: o "profano", saturado pelas imagens do cotidiano, e "o sagrado", revelado pelas oferendas e o ritual de Itutu, que afasta ou prepara a morte. "Para o Candomblé, a morte nem sempre é um pesar, tanto que ela é vista em branco, explica o artista Canabarro, de Florianópolis, que divide a concepção da sala com o artista Janga, os alunos da Universidade do Estado de Santa Catarina e as pessoas ligadas ao Candomblé.
Grande parte dos registros fotográficos da exposição detalham arquitetura tumular e a memória familiar. Danísio Silva assina o ensaio sobre o Cemitério da Consolação, de São Paulo, um dos mais antigos do País e o mais imponente. Já o fotógrafo Márcio Martins registrou o cemitério de poloneses em São Bento do Sul. Como exemplo comparativo, uma sala é destinada à arte das sepulturas inglesas do século XIX, com gravuras de cobre e metal de James Gibbs, conhecido como arquiteto dos túmulos.
Nem a parafernália comercial e consumista que veicula a imagem da morte foi relegada. Em uma das salas da exposição estão à mostra camisetas com a representação da caveira, adereços de diversas "tribos urbanas", acessórios de halloween, entre outros.
Outra sala é dedicada ao pensamento de filósofos pré-socráticos até atualmente. Os visitantes que desejarem fazer a sua própria frase sobre a morte têm espaço para fazê-la num livro destinado para este fim. "Com vários conceitos da morte abordados em toda a exposição, cada pessoa também deve fazer o seu", diz Andrade Filho. A exposição ainda dedica espaço às urnas funerárias, à música erudita e popular, às campanhas publicitárias referentes à temática, à visão infantil acerca da morte, aos convites e à decoração fúnebre. A Poética da Morte na Cultura Brasileira fica em exposição no Masc até 10 de março.

Fonte: Revista Vitrine - Janeiro de 2002