:: RODRIGO DE HARO

Escritor ocupa a cadeira nº 35 e diz que a Academia é um lugar de resistência da língua

Poeta, contista, artista plástico e painelista, Rodrigo de Haro é o mais recente "imortal" da Academia Catarinense de Letras. Filho do não menos consagrado pintor Martinho de Haro, Rodrigo nasceu em Paris, na primavera de 1939, mas foi criado entre as tintas e as artes na casa da família, na rua Altamiro Guimarães, centro de Florianópolis. "Era um local de encontro de artistas e intelectuais", lembra. Hoje reside na Lagoa da Conceição, num antigo casarão, onde tem um ateliê que pretende transformar brevemente numa galeria de artes.
De inspiração surrealista, lírica e terrificante, Rodrigo é professor de pintura e desenho, mas tem hoje, nas suas letras, o maior reconhecimento pelo seu trabalho artístico. Desde 31 de agosto, ocupa a cadeira de nº 35 na Academia Catarinense de Letras. E já prepara o relançamento do livro Mistério de Santa Catarina. "A participação na ACL é válida por ser um lugar de resistência da nossa língua", garante.

AutoretratoObras publicadas

· Trinta Poemas - 1962
· Taça Estendida - 1968
· Pedra Elegíaca - 1978
· Amigo da Labareda - 1982
· Mistério de Santa Catarina - 1992
· Livro da Borboleta Verde - 1996
· Ilha do Luar (textos de prosa)
· Naufrágios - 1998
· Caliban - 1998
· Porta - 2000
· Idílios Vagabundos (inédito)

A viagem de Von Chamisso

Procura pelas alamedas tua sombra
E foge. Desce pela escada curva
Ao labirinto.
Canta tua canção de despedida.
Apanha tua sombra e foge.
- Adeus para os jardins de D. Elvira.
É tarde agora. Atira agora as chaves
Sobre a mesa carcomida
Onde assinaste pactos.
Tambores ruflam nos salgueiros.

Não há mais tempo.
Quebram-se no vento as estátuas
De areia. E palácios ilusórios
Desbotam no ar.
Procura pelas alamedas tua sombra.
Já silenciam os pássaros
Mecânicos.

O caminho é cego entre os rochedos
Mas procura procura
Tua sombra na caligrafia
Dura dos sábios errantes. As mutações
Relatarás entre herbários
Caligráficos de caçador em alma
Perseguida. Aqui passou.
Ali esteve. Mui longe vai.
Procura dia e noite.
Nas lamparinas e nos tombadilhos.
Procura o mormaço das savanas.
Aqui passou.

Desce ao regaço da sombra
Feminina
Mergulha de punhos cerrados
No vórtice da rosa.

Fonte: Revista Cartaz - Dezembro de 2001