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Aprender, para nós, é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito. (Paulo Freire)
Escola é o lugar onde se faz amigos, não se trata só de prédios, salas, quadros, programas, horários, conceitos... Escola é, sobretudo, gente, gente que trabalha, que estuda, que se alegra, se conhece, se estima. O diretor é gente, ocoordenador é gente, o professor é gente, o aluno é gente, cada funcionário é gente. Nada de 'ilha cercada de gente por todos os lados'. Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir que não tem amizade a ninguém, nada de ser como o tijolo que forma a parede, indiferente, frio, só. Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar, é também criar laços de amizade, é criar ambiente de camaradagem, é conviver, é se 'amarrar nela'! E a escola será cada vez melhor na medida em que cada um se comporte como colega, amigo, irmão. Ora , é lógico... numa escola assim vai ser fácil estudar, trabalhar, crescer, fazer amigos, educar-se, ser feliz. (Paulo Freire)
Onde estão os valores?
Diz uma história que numa cidade apareceu um circo, e que entre seus artistas havia um palhaço com o poder de divertir todas as pessoas da platéia,
e o riso era tão profundo e natural que se tornou terapêutico. Todos os que padeciam de tristezas agudas ou crônicas eram indicados pelo médico do lugar para que assistissem ao tal artista que possuía o dom de eliminar angústias.
Um dia um morador desconhecido, tomado de profunda depressão, procurou o doutor que, sem relutar, indicou o circo como o lugar de cura de todos os males daquela natureza. O homem nada disse, levantou-se, caminhou em direção à porta e, quando já estava saindo, virou-se, olhou o médico nos olhos e sentenciou: "não posso procurar o circo... aí está o meu problema: eu sou o palhaço".
Como professor vejo que, às vezes, sou esse palhaço, alguém que trabalhou para construir os outros e não vê resultado muito claro daquilo que faz. Tenho a impressão de que ensino no vazio porque, depois de formados, meus ex-alunos parecem que se acostumam com o mundo de iniqüidades que combatíamos juntos. Parece que, quando caem no mercado de trabalho, a única coisa que importa é o quanto irão lucrar, não importando se alguém será lesado nesse processo.
Aprenderam rindo, mas não querem passar o riso à frente, nem se comovem com o choro alheio. Digo isso, em tom de desabafo, porque vejo que cada dia mais meus alunos se gabam de desonestidades. Os que passam os outros para trás são heróis e os que protestam são otários ou excluídos, é uma total inversão dos valores. Vejo que alguns professores partilham das mesmas idéias e se vangloriam disso.
Essa idéia me assusta cada vez mais, desde que repreendi, numa conversa com alunos, o comportamento do cantor Zeca Pagodinho, no episódio da guerra das cervejas, e quase todos disseram que o cantor estava certo. "O importante, professor, é que o cara embolsou mihões", disse-me um; "daqui a pouco ninguém lembra mais, no Brasil é assim, e ele vai continuar sendo o Zeca, só que um pouco mais rico", disse outro. Todos se entreolharam e riram, só eu fiquei sem graça.
O pior é quando a gente se dá conta de que no Brasil é assim mesmo, o que vale é a lei de Gérson:
"o importante é levar vantagem em tudo". Mas para alguém ganhar é óbvio que outro tem de perder. A lógica é guardar o troco a mais recebido no caixa do supermercado; é enrolar a aula fingindo que a matéria está sendo dada; é cortar a fila do cinema; é dizer que leu o livro, quando ficou só no resumo; é marcar só o gabarito na prova em branco, copiado do vizinho, alegando que fez as contas de cabeça; é comprar na feira uma dúzia de quinze laranjas; é bater num carro parado e sair rápido antes que alguém perceba; é brigar para baixar o preço mínimo das refeições nos restaurantes universitários, para sobrar mais dinheiro para a cerveja da tarde; é arrancar as páginas dos livros das bibliotecas públicas; é arrancar placas de trânsito e colocá-las de enfeite no quarto; é trocar o voto por empregos ou cestas básicas; é fraudar propaganda política mostrando realizações que nunca foram feitas.
É a lógica da perpetuação da burrice. Quando um país perde, todos perdem. E não adianta pensar que logo bateremos no fundo do poço, porque o poço não tem fundo. Felizmente há os descontentes e sonhadores que querem manter o sol brilhando e no alto. A luz é e sempre foi a metáfora da inteligência. No entanto, de nada adianta o conhecimento sem o caráter. Que nas escolas seja tão importante ensinar Literatura, Matemática ou História quanto decência, senso de coletividade e respeito por si e pelos outros. Acho que o mundo precisa mais de gente honesta do que de literatos, historiadores ou matemáticos. De professores, espera-se mais que discurso de bons modos, espera-se que mereçam o salário que ganham (pouco ou muito) agindo como quem é honesto.
Quando essas reflexões são feitas, nos sentimos como o palhaço perdido no palco das ilusões. Enquanto isso, o Brasil de irmã Dulce, de Manuel Bandeira, do Betinho, de Clarice Lispector, de Chiquinha Gonzaga e de muitos outros heróis anônimos que diminuíram a dor desse país com a sua obra, levanta-se, caminha em silêncio até a porta, viras-se e diz: "esse é o problema... eu sou o palhaço". (Autor desconhecido)